quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Perdigão, que qualidade!


O ano era o de 1989. Entre Agosto e Setembro, em Curitiba nessa época do ano costuma estar frio. Lembro que estava calor, ainda com o verão por chegar. Havíamos acabado de nos mudar, continuávamos no mesmo bairro. Mesmo bairro, porém estávamos ansiosos pois iríamos para perto do Pinheiros, antigo clube de Futebol da cidade de Curitiba, que no mesmo ano iria fazer a fusão com o Colorado dando origem ao Paraná Clube. Eu e meu irmão Mozart, uma semana após a mudança, fomos ao Clube para uma experiência (teste). Ele com 10 anos e eu com 12, seguimos para o clube que ficava a 3 quarteirões de nossa casa. Bastou um treino(2 minutos) para meu irmão ser aprovado, e no treino seguinte trazer os documentos. No meu caso, o nosso saudoso e querido professor Evaldo precisou três sessões de treinos para o ok. Introdução feita só para dizer que no segundo dia de treino, apareceu um dos caras mais gente boa que já conheci, e não só, um entre os 3 melhores jogadores que estiveram na formação do Paraná. Os 3 melhores, na minha opinião, são Gilberto (Mascote), Mozart, e o outro é sobre quem irei escrever, Perdigão. Perdigão que me apelidou de Brasil, já que na altura, fui fazer o teste no Pinheiros com a camisa da Seleção Brasileira. Ele disse ao chegar no treino, era a primeira vez que tinha me visto,  "Sou depois do Brasil", existia uma fila, era um tipo de aquecimento em forma de brincadeira o qual chamava-mos "controlinho". Poderia ter sido qualquer um ... mas foi o Perdiga, por isso até hoje eu sou o Brasa. 
Perdiga para os mais chegados. Seu Manoel o pai do Perdiga, quando foi registar ele deve ter dito, 3 nomes próprios ( Cleilton Eduardo Vicente) por que esse aí vai jogar por 3 rsrs.  Perdigão foi campeão do mundo pelo internacional, jogou no Vasco, Corinthians, entre outros clubes. Perdigão teve uma carreira vitoriosa e sem duvida nenhuma, com muita classe ao tratar a bola. Passes precisos e simplicidade no que poderia ser definido por uma das frases de Johan Cruijff, "jogar futebol é simples, difícil é jogar um futebol simples". Simplicidade que tive o prazer de acompanhar desde 89 nos pés do Perdiga. Jogo após jogo, treino após treino a evolução era constante. Quando tinha 15 anos jogando uma partida pelo sub17, meu pai, Seu Mozart, no fim de um jogo pelo campeonato perguntou da arquibancada: "o que você está fazendo aqui Perdigão" ? Entre torcedores, pais, diretores e jogadores que, saindo com o Perdigão em direcção ao vestiário não entenderam nada. O Perdiga levantou a cabeça sem compreender e disse "o quê seu Mozart" ? Meu pai continuou, "o que você esta fazendo aqui?Seu lugar não é aqui, e sim entre os profissionais. Você tinha que estar era na Vila Capanema". A Vila era  onde os profissionais do Paraná Clube treinavam na altura, e com certeza onde Perdigão deveria estar já com 15 anos. Sempre foi acima da média, com 16 para 17 foi transferido para o Atlético Paranaense onde iria jogar como Profissional. Suas convocatórias para Seleção Brasileira de base eram frequentes. Nessa altura, pela qualidade que tinha resolveu mudar de posição. Deu um passo a frente no terreno de jogo e foi jogar a 10. Nunca perguntei-lhe porque. Nesse período de sua carreira foi emprestado para alguns clubes, dentre eles o Belenenses em Portugal, onde na época 98/99 ajudou a equipa do Belenenses a retornar a primeira Liga Portuguesa . Foram 3 meses, ultimo terço da competição, as 8 assistências para golo em 9 jogos fizeram valer e muito para equipa do Belenenses. Como escrevi em meu primeiro texto, muitos jogadores hoje, conseguem jogar em duas ou mais posições. Porem o treinador precisa, e tem o dever de observar, onde esse atleta produzirá mais para equipa e também para a própria carreira no futuro. O Perdiga sempre foi médio interior, no Brasil chamamos de segundo volante, o 8. E foi assim que em 2004 ele retornou a jogar nessa posição, no Rio Grande do Sul, mais precisamente no XV de Campo Bom. Esta equipa na altura comandada por Mano Meneses, treinador da Seleção Brasileira 2010/2012, e que levou Perdigão para o Corinthians em 2008. O seu futebol voltou a dar nas vistas, agora como médio, novamente posição que o levou a todas as seleções de base. Do XV onde foi finalista da Copa do Brasil, foi transferido para o Internacional de Porto Alegre onde viria a ser campeão da Libertadores e do Mundo. Do Boquera para o Mundo, não mudando sua forma de estar na vida, com simplicidade e humildade, humildade essa não forçada. Simplesmente natural, como o seu belo futebol. Orgulho para todos que foram seus companheiros dentro e fora das 4 linhas. No Inter é tratado como ídolo até hoje, com muitos fã clubes e paginas em redes sociais. Redes sociais essas, brincando ou não, o comparavam com o Xavi que jogou no Barcelona. A verdade é que se o Xavi errou 1 passe durante toda a carreira...(não é estatística, sou eu escrevendo)  ... o Perdiga deve ter errado 1 também. O Xavi jogou no Barça. O Perdiga poderia e deveria ter jogado no Real Madri, os torcedores do Real teriam se encantado não tenho duvidas. Escrever sobre o Perdiga é uma honra. Além de um fantástico jogador que foi, é meu amigo e irmão. Hoje é uma de minhas referências sobre o comportamento de um médio durante uma partida de futebol. Abraço e obrigado por nos inspirar até hoje PERDIGÃO.